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Amazônia ou Amazônias? Propostas para a Rio+20

Conferência da ONU estimula região amazônica a unir demandas para elaborar uma agenda positiva.
publicado: 17/04/2012 00h00 última modificação: 23/03/2016 16h18

A região amazônica vai unir demandas para elaborar uma agenda positiva para a próxima Conferência das Nações Unidas sobre o Desenvolvimento Sustentável, conhecida como Rio+ 20, que será realizada no final de junho, na capital fluminense. O maior desafio é identificar e fomentar dinâmicas produtivas capazes de gerar riquezas, ao mesmo tempo em que se garante o uso e conservação da biodiversidade da área - que corresponde a mais de 60% do território nacional - e a qualidade de vida dos que nela habitam.

Tal desafio vem sendo encarado pelo Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa) e pela Superintendência da Zona Franca de Manaus (SUFRAMA) que, desde o último dia 13, vêm realizando workshops em suas áreas de abrangência para identificar as possibilidades de avanços da economia verde, destacando os empecilhos para a efetivação deste avanço, os conhecimentos científicos necessários para suportá-lo e as limitações que, porventura, impedem a geração e utilização destes conhecimentos. “Precisamos de contribuições concretas que apontem onde estão os gargalos para o desenvolvimento”, resumiu o assessor especial da SUFRAMA, Elilde Menezes.

Nesta terça-feira (17), o auditório do Sistema de Proteção da Amazônia (Sipam) de Porto Velho (RO) recebeu o workshop para discutir “Ciência, Tecnologia e Inovação na Amazônia no contexto da economia verde: situação atual e desafios”, que, além da SUFRAMA e do Inpa, uniu representantes de instituições como Sebrae, Fiocruz, ICMBio, Ceplac, do próprio Sipam e de instituições de ensino superior, para prospectar as demandas do Estado. O mesmo trabalho já foi feito na última sexta-feira (13) em Boa Vista (RO) e será realizado em Rio Branco (AC) nesta quinta (19) e em Manaus no dia 2 de maio. “Sabemos que a região tem potenciais, mas queremos ouvir quais são as dificuldades para que essas potencialidades se efetivem, principalmente em relação à ciência e tecnologia”, explicou o pesquisador Niwton Leal Filho, do Inpa, ao abrir os trabalhos na capital de Rondônia.

Demandas
Representantes de cada uma das entidades presentes puderam apresentar aos demais, durante 20 minutos, o que elas têm feito pela economia verde na região e as principais dificuldades para torná-la efetiva.

João Machado, coordenador de projetos de piscicultura do Sebrae-RO, disse que o maior desafio em sua área está na criação de Pirarucu em cativeiro. “A demanda pelo produto é grande, mas a técnica para criação ainda é incipiente. Precisamos dominar a desova deste animal, criar rações adequadas...Não dá para pensar em piscicultura na região sem tecnologia e não dá para pensar tecnologia na Amazônia que não seja tecnologia verde”, revelou Machado, que destacou que um marco regulatório, junto ao IBAMA e ao Ministério da Pesca, foi estabelecido no final do ano passado, garantindo a liberação da exportação dos animais criados em cativeiro com origem identificada.

Roberto Nicolete, pesquisador da Fiocruz, fomentou o debate ao sugerir que a ciência deve ser “micro regionalizada” na Amazônia. “A região tem uma grande diversidade étnica, biológica e geográfica. E as políticas de ciência, tecnologia e inovação têm sido trabalhadas de maneira colonialista, com um espírito de industrialização fordista. Não dá para padronizar os povos da floresta, é preciso estabelecer política de fortalecimento das bases científicas locais, o que inclui até mesmo o reforço na educação básica”, defendeu.

Iremar Ferreira, do Instituto Madeira Vivo, destacou que muitas medidas tomadas a título de preservação da floresta acabam engessando o desenvolvimento dos povos. “Não há preocupação com os pequenos projetos, que levam qualidade de vida às populações locais. O orçamento é sempre direcionado para grandes infraestruturas”, reclamou.

Ao final do primeiro bloco de discussões, muitos participantes apontaram a falta de recursos humanos para pesquisa e desenvolvimento da região e a dificuldade de fixar as poucas existentes na Amazônia como um dos gargalos da economia verde.

No segundo bloco, que contou com a participação de duas entidades de ensino superior de Porto Velho, questionou-se a dificuldade de se conseguir recursos para ciência e tecnologia, o que acaba por matar bons projetos no nascedouro. “Temos um projeto para recolher resíduos sólidos da área de tecnologia, dando novo aproveitamento aos produtos, mas não temos sequer área física para desenvolvê-lo”, lamentou Elisângela Pinho, do curso superior em tecnologia para a Internet da Faculdade São Mateus. “Na área de Nutrição temos ótimos projetos para a segurança alimentar, mas na hora da prática os investimentos públicos vão para questões mais imediatas, eleitoreiras”, apontou Juliana Souza Closs Correia, coordenadora do curso de Nutrição da Faculdade São Lucas.

Ana Cristina, do SIPAM-RO, lembrou que o Sistema oferece gratuitamente estudos sobre a região para ajudar os municípios nas suas vocações. “Fatiamos nosso banco de dados no final de 2009 e distribuímos cartilhas para as prefeituras com estudos de interesse de cada município”, disse. Ela lembrou que, através de um programa chamado Probacias, identificou que na bacia do rio Jaru, com 56% de desmatamento em 30 anos, se nada for mudado, a demanda por água até 2023 será maior que a vazão disponível para captação.

Wilson Destro, da Comissão Executiva do Plano da Lavoura Cacaueira (Ceplac), apresentou um Raio X do setor, mostrando que o maior desafio é desenvolver tecnologias com sistemas agroflorestais para recuperação de áreas degradadas. “Recuperação com produção”, destacou.

Soluções
Mesmo antes da compilação do que foi discutido em Porto Velho, o workshop mostrou aos participantes que muitas das soluções para os entraves da economia verde já estão à mão e só é preciso organizar os arranjos. Sipam e Ceplac viram na produção de Cacau uma possível solução para recuperação de matas ciliares, preservando as bacias hidrográficas. Inpa e Sebrae-RO estreitaram relações para estudos sobre o comportamento do Pirarucu. As faculdades presentes e a SUFRAMA viram a chance de reforçar parcerias para melhor aproveitamento dos resíduos tecnológicos do PIM, com uso de recursos do Comitê das Atividades de Pesquisa e Desenvolvimento (Capda).“Não há dúvida de que foi um evento extremamente produtivo”, comemorou o diretor do Inpa, Estevão Monteiro de Paula. Até o final do mês, cada Estado indicará um representante para levar suas propostas ao Fórum Técnico-Científico que será feito em paralelo à Rio+20.