Você está aqui: Página Inicial > Notícias > SUFRAMA investe em banco de germoplasma

Notícias

SUFRAMA investe em banco de germoplasma

A iniciativa pode se tornar uma alternativa viável para alavancar o sistema produtivo do setor primário no Estado, ainda considerado um grande desafio.
publicado: 16/09/2010 00h00 última modificação: 29/04/2016 15h50

Um projeto desenvolvido pela Comissão Executiva do Plano da Lavoura Cacaueira (Ceplac) em parceria com a Superintendência da Zona Franca de Manaus (SUFRAMA) propiciou a implantação do primeiro banco de germoplasma (unidade conservadora de material genético) de cacau do País de maneira consorciada (agrupada) à plantação de espécies nativas da floresta amazônica. A iniciativa pode se tornar uma alternativa viável para alavancar o sistema produtivo do setor primário no Estado, ainda considerado um grande desafio.

O banco de germoplasma, que começou a ser implantado em 2002, ocupa uma área de sete hectares e funciona na Estação Experimental Rio Negro, uma das unidades da Ceplac no Amazonas, integrando as atividades do programa de Pesquisa e Extensão Rural da entidade. O objetivo é suprir o Estado de sementes para atender ao cultivo de Sistemas Agroflorestais na região. Esse modelo de plantio foi adotado pela Ceplac há alguns anos como solução para viabilizar o uso do solo de maneira sustentável de modo a favorecer o cultivo de diferentes espécies em uma mesma área e propiciar a geração de renda para a população.

A idéia de criar arranjos produtivos agrícolas mediante o cultivo do cacau, conhecido também como fruto de ouro, de forma consorciada a espécies frutíferas e florestais da Amazônia é uma especificidade desse banco de germoplasma em relação a outros implantados no País. “Nós estamos mais próximos da floresta (amazônica) e o que nós procuramos por meio desse projeto é criar um ambiente integrado à realidade do nosso bioma amazônico”, esclarece o gerente da Estação Experimental Rio Negro, Geraldo Anísio.

Os resultados alcançados até agora são promissores. Prova disso, é a quantidade de plantas cultivadas. Atualmente, o banco de germoplasma conta com 2.200 pés de cacau. No local, também podem ser encontradas 56 outras espécies, incluindo plantas frutíferas como a banana, cupuaçu, manga, graviola, taperebá, caju, goiaba, coco, abacaba, camu-camu, urucu, abiu, bacuri, araçá-boi, abacate, além de outras fruteiras tropicais, entre as quais, murici, carambola, sorvinha, rambutã, puruí, biribá, acerola, laranja, tangerina. Também estão sendo cultivadas essências florestais como andiroba, jacareúba, pau-rosa, e ainda plantas de grande valor no mercado madeireiro, com destaque para o mogno brasileiro, itaúba, jatobá, piquiá, massaranduba, espécies já consideradas em extinção, e o angelim.

Um dos benefícios do sistema agroflorestal é o fato de contribuir para a expansão da chamada cacauicultura no Estado. Apesar dos avanços desse tipo de agricultura, conquistados nos últimos anos mediante a adoção de manejo de cacaueiros nativos nas várzeas e o cultivo de cacaueiros em sistemas agroflorestais em áreas de terra firme, o Amazonas ainda ocupa um papel modesto no mercado nacional de cacau. Em 2009, a produção foi de aproximadamente 2,5 mil toneladas. Esse montante está bem abaixo do contabilizado, por exemplo, pelo Estado vizinho do Pará que, no mesmo período, alcançou a produção de cerca de 50 mil toneladas. “O preço do cacau segue um equilíbrio dinâmico, mas sempre tem mercado. Recentemente, com as descobertas de seu uso para produção de fitoterápicos e fitocosmésticos, tem aumentado a demanda pelo fruto no mundo, além, obviamente, de sua utilização no mercado alimentício. Por isso, o Brasil está buscando retomar a posição entre os maiores exportadores de cacau, inclusive, com o lançamento recentemente do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento) Cacau, e o Amazonas também precisa avançar nesse sentido”, ressalta o técnico da Ceplac, Valdenor Cardoso.

Outro ponto positivo é possibilitar a produção de diferentes espécies agrícolas durante período de tempo contínuo, para utilização como agricultura de subsistência e produção de excedente, visando à geração de renda aos produtores em um curto espaço de tempo. “A partir do terceiro mês de plantio os agricultores podem contar com produção de feijão por exemplo. Em nove meses, podem ser colhidas outras espécies, como a mandioca, e assim sucessivamente”, comenta o técnico da instituição.

Também é importante ressaltar o aspecto do ganho ambiental gerado por esse tipo de iniciativa. De acordo com o gerente da Estação Experimental Rio Negro, Geraldo Anísio, por meio dessas técnicas é possível atuar na recuperação e conservação de áreas degradadas, de pastagens ou de cultivos itinerantes na terra firme e, no caso da várzea, contribui para a recomposição das matas ciliares que estão sendo erodidas pela água, uma vez que essas técnicas possibilitam produzir material orgânico e preservar a microbiologia do solo. “Por meio desses benefícios, é possível mensurar a alta significância do projeto para o processo produtivo tanto pela produção econômica quanto pelo aspecto ambiental”, explica Geraldo Anísio.

O gerente da Estação Experimental Rio Negro também fez questão de ressaltar que a parceria com a SUFRAMA foi primordial para concretização desse projeto, bem como para o andamento das próprias atividades da Ceplac como um todo. Ele explica que na época, estava passando por dificuldades financeiras e graças aos recursos da autarquia foi possível, além da implantação do banco de germoplasma, a geração de outros benefícios, como a aquisição de veículo de transporte.

Primeira distribuição de sementes
Ainda neste ano, deve ocorrer a distribuição da primeira produção de sementes híbridas de cacau, oriundas do banco de germoplasma junto a agricultores do interior. Inicialmente, a previsão é que sejam produzidas em torno de 200 mil a 250 mil sementes. Para o próximo ano, a expectativa é que a produção alcance 500 mil sementes e dentro de cinco anos, espera-se chegar a 1,3 milhão de sementes por hectare.

Estão sendo beneficiados produtores cacaueiros de Barreirinha, Borba, Careiro Castanho, Itacoatiara, Nova Olinda, Urucurituba, Novo Aripuanã, Manicoré, Autazes, São Sebastião do Uatumã, Urucará, Silves, Itapiranga e da capital amazonense. As sementes de cacau a serem fornecidas são híbridas, obtidas a partir de cruzamentos, o que deverá proporcionar produção em grande escala, melhor qualidade dos frutos, além de maior resistência a pragas, doenças e condições climáticas adversas. Sem contar que essa iniciativa deve reduzir a dependência dos produtores amazonenses que, até então, importavam sementes de Estados vizinhos, como Rondônia e Pará, para o plantio de suas lavouras, bem como contribuir para ampliar a produção dessa lavoura no Amazonas e reposicionar o Estado no cenário da indústria cacaueira nacional.

Atualmente, somente em área de terra firme o Amazonas possui 2.580 produtores assistidos, com cerca de 5 mil hectares de cacau plantado em forma de Sistema Agroflorestal (SAF`s). Esses produtores vão passar a receber sementes do banco de germoplasma financiado pela SUFRAMA, utilizando esse material para preparar mudas.

Experiências exitosas
Por meio de seu programa de Assistência Técnica e Extensão Rural, a Ceplac está intensificando os esforços para a revitalização da lavoura cacaueira no Estado e apesar dos poucos recursos que dispõe, a instituição está conseguindo colher bons frutos através da adoção de dois agrossistemas em municípios do interior: o manejo de cacaueiros nativos nas várzeas e o cultivo em sistemas agroflorestais nas terras firmes. Uma das experiências que vem dando certo é o manejo de cacau nativo no município de Urucurituba (distante 192 quilômetros da capital Manaus). Desde o início do trabalho realizado pela Comissão Executiva do Plano da Lavoura Cacaueira no município, foi constatada uma elevação da produtividade, de 200 quilos de cacau seco por hectare sem manejo para até 600 quilos de cacau seco por hectare manejado.

Esse ganho de produtividade se deu em decorrência da adoção de técnicas simples de manejo rotineiro, que inclui a retirada de galhos desnecessários, da vassoura de bruxa e o uso de espécies de sombreamento provisório para agregação de valor, como banana e glicídia (planta utilizada para fixar nitrogênio no solo, por meio da bactéria rizóbio e de produção de biomassa para decomposição de matéria orgânica). Devido ao caráter sustentável da produção, a Ceplac em parcerias com organizações não-governamentais (ONGS), está trabalhando a certificação orgânica de cacau produzido em Urucurituba. “A partir daí, é possível ver a capacidade desse tipo de sistema que propicia a produção de forma sustentável”, frisa Geraldo Anísio.

Além de Urucurituba, essa prática também vem sendo adotada pelos técnicos da Ceplac nas várzeas dos rios Madeira, Purus e Solimões, onde maciços cacauais, em forma de sistemas agroflorestais, podem ser encontrados em pleno processo de produção agroextrativista familiar. O resultado é tão promissor que está despertando o interesse internacional. Pelo fato de estar produzindo cacau com base nos padrões da agricultura orgânica, os municípios que integram a mesorregião do Purus (Boca do Acre, Canutama, Lábrea e Tapauá) começaram, recentemente, a exportação de cacau na forma de amêndoas secas para a Alemanha, por meio de parceria público-privada (PPP), articulada pela Agência de Cooperação Técnica Alemã (GTZ) e firmada entre as cooperativas de produtores e a empresa alemã Hachez, especializada em cooperação internacional para o desenvolvimento sustentável, produzindo chocolate com o cacau da Amazônia. “A industrialização desse cacau orgânico de várzea, com os incentivos fiscais da Zona Franca, seria uma grande alternativa agroindustrial para dinamizar as economias das regiões povoadas por produtores ribeirinhos que há muito tempo estão excluídos dos processos de desenvolvimento econômico do Estado”, declara Valdenor Cardoso.

Base para novos projetos
O banco de germoplasma de espécies frutíferas e florestais financiado pela SUFRAMA vem somar-se aos 53 anos de experiência da Ceplac e ao seu modelo de gestão institucional que envolve a pesquisa, extensão rural e o fomento agrícola, sob uma mesma bandeira: facilitar a vida do produtor familiar.

Essas características técnicas e administrativas da CEPLAC foram determinantes para a implantação de cerca de 150 mil hectares de cacaueiros na Amazônia no período de trinta e três anos, compreendidos entre 1977 a 2010. “Com essa expertise a Ceplac se credenciou junto ao Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, para ser a instituição implementadora de recuperação de áreas degradas com Sistemas Agroflorestais daquele ministério, o que já vem fazendo nas áreas de capoeira do Amazonas”, afirma o gerente regional da entidade e engenheiro agrônomo, Gláucio Silva.

Além disso, esse projeto pode servir de base para o desenvolvimento de linhas de projetos. Uma das propostas é utilizar as técnicas desenvolvidas pela entidade para o cultivo do cacau, de forma consorciada a espécies frutíferas e florestais da Amazônia com o objetivo de subsidiar a modelagem de arranjos institucionais para a gestão da agricultura familiar. Todavia, o gerente destaca a necessidade de adoção de parcerias entre os diversos atores envolvidos no processo como condição sine qua non para o fortalecimento da agricultura familiar, com geração de trabalho no meio rural, melhoria da renda e das condições de vida da população.

Conforme a coordenadora-geral de Desenvolvimento Regional da autarquia, Eliany Gomes, o banco de germoplasma e o programa de assistência técnica da Ceplac podem contribuir de forma significativa para o desenvolvimento da atividade agrícola com base em sistemas agroflorestais em pequenas e grandes propriedades rurais no interior do Amazonas. “As sementes ou mudas e a assistência técnica são insumos básicos para a implementação de uma política agrícola exitosa”, conclui.